A FESTA DE NOSSO SENHOR DO BONFIM
O culto ao Senhor do Bonfim teve origem em 1669, em Setúbal, Portugal. Ainda neste ano o culto chegou ao Brasil, junto com uma cruz de Jesus crucificado. Uma imagem igual à que existe em Portugal chegou à Bahia em 1745 e, em 1754, foi construída a atual Igreja (Basílica) de Nosso Senhor do Bonfim.
Esta festa é considerada a mais importante das comemorações de largo de Salvador. Com data móvel, os festejos religiosos (a parte sacra da festa) consiste num novenário que se encerra no segundo domingo após o Dia de Reis.
A festa realiza-se no Largo do Bonfim, bem em frente à igreja, no alto da Colina Sagrada, na última quinta-feira antes do final do novenário e é marcada pela lavagem da escadaria e do adro da igreja por baianas vestidas a caráter, trazendo na cabeça água de cheiro (muito disputada entre os fiéis) para lavar o chão da igreja e flores para enfeitar o altar.
Nos cultos afro-católicos, o Senhor do Bonfim é sincretizado com Oxalá, segundo Verger, "sem outra razão aparente senão a de ter ele, nesta cidade, um enorme prestígio e inspirar fervorosa devoção aos habitantes de todas as categorias sociais" (1997: 259). Ocorre também uma aproximação entre a festa católica e a dos cultos afro-brasileiros, as "Águas de Oxalá".
A festa da lavagem é atribuída à promessa de um devoto. Acredita-se que o ritual da lavagem teve origem nos tempos em que os escravos eram obrigados a levar água para lavar as escadarias da Basílica para a festa dos brancos, desde esta época um agradecimento do povo às graças concedidas pelo Senhor do Bonfim. Considera-se o ano de 1804 como o da primeira lavagem oficial.
O cortejo parte ainda pela manhã da Igreja de Nossa Senhora da Conceição da Praia e vai até o Bonfim, arrastando multidões num percurso de aproximadamente 14 quilômetros. Uma presença certa nesta caminhada é a de autoridades civis e militares, artistas e personalidades da cidade de Salvador, da Bahia e do Brasil.
Até a década de 50 as baianas tinham acesso ao interior da Igreja, onde o chão era lavado "com energia e entusiasmo" (Verger, 1990: 11), até que as autoridades eclesiásticas limitaram a lavagem apenas ao adro da Igreja.
Paralelo aos festejos religiosos, há ainda a festa "profana", marcada pela presença de barracas de comidas típicas e bebidas, desde o alto da Colina Sagrada. A partir de 1998 a parte carnavalesca da festa sofreu uma intervenção imposta pela Prefeitura Municipal e pela Arquidiocese de Salvador que, numa tentativa de defender as tradições históricas da festa, promoveram um afastamento dos trios elétricos e caminhões de blocos alternativos que acompanhavam o cortejo desde a Avenida Contorno, muitas vezes sequer chegando à metade do percurso e de uma certa forma desviando e desvirtuando o caráter religioso do dia, promovendo um mini-carnaval com direito a todos os excessos que lhe são peculiares. Mesmo com as restrições determinadas pela organização da festa, neste ano de 2000 a EMTURSA (Empresa Municipal de Turismo) estimou a presença de 300 mil pessoas nas ruas, acompanhando os festejos.
Como alternativa para os foliões de ocasião e para as agremiações, entidades e empresas envolvidas na promoção da parte profana da festa (que virou evento turístico, com altos investimentos e atraindo mais turistas do que a própria festa religiosa), ficou estabelecido que nos sábados seguintes à Lavagem do Bonfim aconteceria no bairro da Barra o Farol Folia, grito de carnaval dedicado aos blocos que ficariam afastados da festa de quinta-feira. O percurso é o mesmo conhecido no carnaval como Circuito Dodô e sai do Farol da Barra em direção ao bairro de Ondina, perfazendo um total de 4 quilômetros.
No dia 12 de janeiro de 2000 foi inaugurada a nova iluminação da fachada da igreja. O projeto de iluminação evidenciou as pilastras e a torre dos sinos, ressaltando os elementos arquitetônicos e criando volumes.
Questões de método
Neste pequeno ensaio não tenho como objetivo estabelecer uma análise de conteúdos à luz da antropologia social - esta será a matéria da minha própria dissertação - mas simplesmente indicar heuristicamente como estabeleci critérios que possibilitassem uma correspondência biunívoca entre os registros de Pierre Verger e sua provável percepção nos dias de hoje.
Acredito que uma análise comparativa de conteúdos só será possível se os parâmetros de comparação forem compatíveis, ou seja, se houver uma correspondência lógica entre os dois contextos estudados.
Para tanto, a primeira ação neste sentido foi coletar uma amostragem das fotografias originais que fossem passíveis de uma análise comparativa, ou seja, que contivessem elementos visuais suscetíveis a uma aproximação nos dias de hoje.
Esta amostragem foi coletada do livro Retratos da Bahia (Editora Corrupio, Salvador, 1990), que também é a referência da minha dissertação. Consistiu de 5 (cinco) fotografias que expressavam a visão do etnólogo francês a respeito da Festa. Sobre estas imagens tentei detectar que detalhes poderiam ser retratados por mim e servir de um tópico de discussão e análise.
A partir do exame das imagens de Verger e de toda a projeção que a Lavagem do Bonfim ganha ano após ano, decidi observar a participação popular , sua presença no local da Festa e como o poder público, os órgãos de segurança e as empresas de comunicação de massa se relacionam neste sistema.
Tendo estabelecido estes parâmetros, parti para o local da festa, no dia 13 de janeiro de 2000.
FONTE: http://www.naya.org.ar/congreso2000/ponencias/Luis_Americo.htm
Assinar:
Postar comentários (Atom)

Um comentário:
salve! ^^
Postar um comentário